Baudelaire: o esboço da “deusa da decadência”

Pages: 18 (4349 mots) Publié le: 5 janvier 2011
BAUDELAIRE: O ESBOÇO DA “DEUSA DA DECADÊNCIA”
A N A L U I Z A SILVA C A M A R A N I

“Vous dotez le ciel de l’art d’on ne sait quel rayon macabre. Vous créez un frisson nouveau” (Praz, 1977, p.142), diz Victor Hugo a respeito da poesia de Baudelaire. Entretanto, este novo estremecimento revelou-se extremamente inquietante para a crítica e o grande público da época, por ocasião da publicaçãodas Flores do Mal, em 1857. São poucas as críticas mais moderadas, entre elas a de Saint-Beuve que se mostra favorável, embora reticente e sem prestar grandes esclarecimentos sobre a nova obra. Os comentários verdadeiramente elucidativos partirão de jovens poetas que lêem Baudelaire com admiração:
(...) je me plonge avec délices dans les chères pages des Fleurs du Mal. Mon Baudelaire à peineouvert, je suis attiré dans un paysage surprenant qui vit au regard avec l’intensité de ceux que crée le profond opium (Lethève, 1959, p. 154),

escreve Stéphane Mallarmé, em 1865. Mas é Paul Verlaine que, nesse mesmo ano, contribui, no âmbito da crítica literária, com um dos artigos mais compreensíveis até então consagrados a Baudelaire:
La profonde originalité de Charles Baudelaire, c’est à monsens, de représenter puissamment et essentiellement l’homme moderne (...). Je n’entends ici que l’homme physique moderne, tel que l’ont fait les raffinements d’une civilisation excessive, l’homme moderne avec ses sens aiguisés et vibrants, son esprit douloureusement subtil, son cerveau saturé de tabac, son sang brûlé d’alcool, en un mot, le bilio-nerveux par excellence, comme dirait H. Taine(Lethève, 1959, p. 154-5).

Na verdade, essa representação do homem moderno, produto dos refinamentos de uma civilização excessiva, vem já anunciada na antítese do título Flores do Mal, bem como na dedicatória à Theóphile Gautier (“Au poète impeccable (...) je dédie ces fleurs maladives”), e está intimamente ligada ao conceito de Beleza do poeta que procura
établir une théorie rationnelle et historiquedu beau, en opposition avec la théorie du beau unique et absolu, (...) montrer que le beau est toujours, inévitablement, d’une composition double, bien que l’impression qu’il produit soit une. [Segundo Baudelaire] le beau est fait d’un élément éternel, invariable, dont la quantité est excessivement difficile à déterminer, et d’un élément relatif, circonstanciel, qui sera, si l’on veut, tour àtour ou tout ensemble, l’époque, la mode, la morale, la passion (1961, p. 1154).

Assim, a Beleza nasce também do transitório, do fugitivo, do contingente. E o que vêem os olhos do poeta? - um mundo ávido de progresso, industrializado, automatizado, degradado, onde se encontra
(...) partout, et sans l’avoir cherché Du haut jusques en bas de l’échelle fatale Le spectacle ennuyeux de l’immortelpéché (...) (Baudelaire, 1961, p. 125).

Não mais a idade de ouro situada pelo poeta na antigüidade pagã, onde “Phoebus se plaisait à dorer les statues” (Baudelaire, 1961, p.11), em que o mundo era jovem e sadio e os homens, belos, gozavam de uma liberdade feliz, harmoniosa e ignorante do pecado. Mas o poeta sente-se impotente em cantar uma possível Beleza, pelo menos aquela que existiu num tempo deouro, isto porque ele está fadado a viver num tempo em que ela, além de não mais existir, se transformou apenas num clichê poético desgastado (Gomes, 1989, p.33).

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O mundo moderno surge como um negro painel composto por seres monstruosos:
O monstruosités pleurant leur vêtement! O ridicules troncs! torses dignes de masques! O pauvres corps tordus, maigres, ventrus ou flasques Que ledieu de l’Utile, implacabe et serein, Enfants, emmaillota dans ses langes d’airain! (Baudelaire, 1961, p. 12).

As palavras dorer: dourar, revestir de ouro e airain: bronze (destacadas por nós), mostram bem a degradação do mundo através do metal: o ouro, símbolo de uma época que representa a origem do mundo, avilta-se pouco a pouco através do progresso humano, dando lugar a uma liga metálica...
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