Antropofagia e esquizoanalise

Pages: 19 (4526 mots) Publié le: 1 février 2011
Esquizoanálise e Antropofagia * Suely Rolnik

«Talvez só Deleuze e Guattari tenham praticado essa esquizoanálise, e talvez alguns de seus leitores (...) Atribuir-lhe a praça pública (...) teria sido territorializála.» Esta é a situação da esquizoanálise em 1988, segundo François Regnault, num ensaio que integrou o Dossiê Deleuze, editado naquele ano pelo Magazine Littéraire 1 . Curiosamente, oBrasil parece destoar desse quadro: a esquizoanálise encontra um solo fecundo nas práticas clínicas locais, principalmente as psicanalíticas, já no final dos anos 70; e desde então, ela só vem proliferando. Contudo, que não se espere encontrar aqui uma escola esquizoanalítica: concordando com Regnault, isso seria risível, pois iria à contramão das idéias de Deleuze e Guattari (embora nada impeçaque se queira transformá-las em breviário de uma nova escola). A esquizoanálise está presente no exercício clínico e teórico de alguns psicanalistas, pertencentes ou não a associações psicanalíticas, que recorrem à obra de Deleuze e Guattari; também no trabalho que se desenvolve com grupos e instituições, vinculado sobretudo à psicose; e, ainda, em programas de pósgraduação de psicologia clínica,onde núcleos de pesquisa vêm estudando essa obra e produzindo um número significativo de teses de mestrado e doutorado. Pode-se dizer, ainda, que a esquizoanálise habita, embora não explicitamente, o imaginário de analistas de diferentes filiações - e não só dos que a reivindicam -, convocando, em seu fazer teórico, uma sensibilidade à emergência do novo. Em outras palavras, ela funciona nesteâmbito como uma espécie de chamado à dimensão crítica da clínica 2 . Terá o quadro esboçado por Regnault mudado tanto de 1988 para cá? Pareceme que não. Então, o que faz do Brasil essa exceção no solitário destino da esquizoanálise? O tradicional fascínio do brasileiro pela cultura francesa - que, evidentemente, incluiria os psicanalistas? Se assim fosse, essa influência poderia limitar-se a umabibliografia estritamente psicanalítica, já que a produção francesa neste campo é farta e conta com ampla divulgação no mercado editorial brasileiro.

Publicado na França e no Brasil, respectivamente in Gilles Deleuze. Une vie philosophique, Alliez, Éric org. (Paris: Les empêcheurs de penser en rond, Synthélabo, 1998); pp. 463-476 e in Gilles Deleuze. Uma vida filosófica (São Paulo: Editora 34, 2000);pp. 451-462. Texto apresentado no colóquio Encontros Internacionais Gilles Deleuze (Brasil, 10-14 de junho de 1996).
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François Regnault, “Une vie philosophique”, Magazine Littéraire n.257, Paris, sept. 1988. Cf. Paulo C. Lopes: Pragmática do desejo. Aproximações a uma teoria da clínica em Félix Guattari e

Gilles Deleuze. Dissertação de mestrado, Universidade Católica de São Paulo(PUC-SP). São Paulo, 1996.

10 São então outros, certamente, os motivos dessa peculiar situação da esquizoanálise no Brasil. Arriscarei uma hipótese: a concepção de subjetividade de Deleuze e Guattari, implicada em sua teoria da clínica (a qual, por vezes, eles chamaram de “esquizoanálise”), faria eco a um dos princípios constitutivos das subjetividades no Brasil. Chamarei esse princípio de“antropofágico”, trazendo para a esfera da subjetividade, e reinterpretando, aquilo que o Movimento Antropofágico 3 apontou no domínio da estética e da cultura brasileiras. «Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente» 4 - é com essas palavras que Oswald de Andrade inicia o Manifesto Antropofágico. Numa leitura desatenta, a antropofagia pode ser entendida como uma imagem querepresentaria “o brasileiro”, e que, além de delinear o contorno de uma suposta identidade cultural, teria a ambição de englobar o conjunto tão diversificado de tipos que forma a população deste país. No entanto, o interessante na demarche oswaldiana é justamente um movimento que se desloca dessa busca de uma representação da cultura brasileira, e tenta alcançar o princípio predominante de...
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